Agronegócio

Como Surgiu a Pecuária de Elite em Uberaba

Origem e evolução da criação de zebu em Uberaba, das primeiras importações aos leilões e à ExpoZebu

·há 1h·Uberaba, MG
Uberaba, MG
Foto: acervo de Uberaba

Introdução

Uberaba, no Triângulo Mineiro, construiu ao longo do século XX uma identidade singular na pecuária brasileira: a de berço e palco da chamada pecuária de elite. Esse processo, que transformou a cidade em referência nacional e internacional, envolveu importações, experimentação genética, investimentos de pioneiros locais e a criação de instituições e eventos que elevaram o zebu ao centro das atenções. Neste editorial, investigamos como surgiu essa tradição, quais foram os atores e mecanismos centrais e por que Uberaba hoje é reconhecida como a capital mundial do zebu.

## Das importações de zebu ao solo mineiro

A origem da pecuária de elite em Uberaba tem raízes no começo do século XX, quando criadores brasileiros voltaram os olhos para o gado zebu, procedente do subcontinente indiano. As primeiras importações do chamado gado zebu indiano chegaram ao Brasil nas primeiras décadas do século XX, motivadas pela necessidade de animais mais adaptados ao clima tropical, mais resistentes a parasitas e mais produtivos em termos de ganho de peso e resistência.

Uberaba, por sua posição geográfica e por já contar com fazendas dedicadas à pecuária, tornou-se ponto natural para a experimentação com esses animais. A comparação entre as raças europeias e o zebu logo evidenciou vantagens claras em ambientes nordestinos e centro-oeste, mas também mostrou potencial para criar linhagens de alto desempenho adaptadas ao cerrado e ao clima de Minas Gerais.

## Pioneiros locais e o papel de criadores como Teófilo Godoy, Celso Garcia Cid e Joaquim Borges

A difusão do zebu em Uberaba foi impulsionada por um grupo de criadores e fazendeiros que apostaram cedo nas importações e no melhoramento genético. Nomes como Teófilo Godoy, Celso Garcia Cid e Joaquim Borges aparecem nas narrativas locais como pioneiros que investiram em rebanhos de qualidade, trouxeram exemplares estrangeiros e foram fundamentais para as primeiras seleções.

Esses criadores representavam um tipo de investidor rural que combinava visão de mercado e preocupação técnica: não se tratava apenas de aumentar o rebanho, mas de construir linhagens, registrar animais e participar de seleções que valorizassem características como conformação, fertilidade e adaptação ao clima. Muitas das fazendas históricas da região serviram como laboratórios a céu aberto, onde se testaram cruzamentos e se consolidaram padrões raciais que viriam a ser referência no país.

## Formação das raças e a criação de padrões nacionais

A consolidação das raças Nelore, Gir, Guzerá, Tabapuã e Brahman no Brasil é resultado de décadas de trabalho de seleção e cruzamento. Cada uma destas raças recebeu influências distintas: o Nelore, por exemplo, tornou-se a espinha dorsal do rebanho nacional, valorizado por sua rusticidade; o Gir destacou-se pela aptidão leiteira e pela capacidade materna; o Guzerá e o Tabapuã contribuíram com características de produção e resistência; e o Brahman, com origem em misturas de zebu, consolidou-se como raça de alto desempenho em cruzamentos industriais.

Em Uberaba, criadores acompanharam e também impulsionaram esses processos, participando de registros de pedigree e de associações raciais. A necessidade de padronizar critérios e formar um mercado organizado levou à criação de entidades que registrassem, avaliassem e divulgassem animais de qualidade.

## Fundação da ABCZ e institucionalização da criação de zebu (1934)

Um marco institucional fundamental foi a fundação da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), em 1934. A entidade centralizou esforços de padronização, registro genealógico e promoção das raças zebuínas, criando um ambiente institucional propício ao surgimento de uma pecuária cada vez mais técnica e especializada.

A ABCZ desempenhou papel essencial ao promover provas zootécnicas, definir normas de registro e organizar eventos que aproximaram criadores de diferentes regiões. Essa institucionalização foi decisiva para transformar práticas dispersas em um mercado com critérios de qualidade reconhecidos nacional e internacionalmente.

## Fazendas históricas e a memória da criação

As fazendas históricas ao redor de Uberaba ajudaram a preservar material genético e tradição. Muitas propriedades, algumas com gerações de experiência, mantiveram plantéis selecionados e investiram em infraestrutura de manejo, manejo reprodutivo e assistência técnica. O cultivo de sangue de elite nesses rebanhos foi um fator-chave para a formação de linhagens que serviriam de referência nos futuros leilões e concursos.

Além do aspecto produtivo, essas fazendas foram centros de experimentação — onde se adotaram tecnologias como inseminação artificial e programas de avaliação de ganho de peso e eficiência alimentar. A memória desses empreendimentos faz parte da narrativa local e é frequentemente mencionada em registros históricos e em celebrações do setor.

## Melhoramento genético e o avanço tecnológico

O avanço do melhoramento genético foi central para elevar a pecuária mineira a um patamar de elite. Com o passar das décadas, práticas científicas passaram a compor o cotidiano do campo: avaliações de progênie, testes de desempenho, controle de parentesco e, posteriormente, tecnologias moleculares.

A inseminação artificial foi uma das ferramentas que acelerou a difusão de sangue de alta qualidade. Ao permitir a multiplicação de touros de destaque sem a necessidade de transporte físico constante, a técnica tornou possível que rebanhos relativamente distantes tivessem acesso a material genético superior. Posteriormente, a transferência de embriões e as técnicas de biotecnologia reprodutiva ampliaram ainda mais esse alcance.

Com a chegada da seleção assistida por marcadores genômicos, o processo ganhou precisão: hoje, é possível estimar com maior segurança o potencial produtivo e reprodutivo de animais jovens, reduzindo o tempo e o custo para a formação de touros e matrizes de elite.

## Leilões de elite e o mercado do sangue

Os leilões passaram a funcionar como termômetros do valor genético e do prestígio de criadores. Em Uberaba, leilões de elite atraem compradores de todo o Brasil e do exterior, negociando animais com preços que refletem não apenas a conformação, mas a ascendência, a performance comprovada e a capacidade de transmitir características superiores.

Esses eventos consolidaram uma economia paralela ao ciclo pecuário tradicional: consultorias genéticas, avaliações em pista, serviços de reprodução assistida e logística de transporte internacional tornaram-se negócios complementares, todos concentrados em torno de uma cadeia que valoriza a qualidade do sangue.

## ExpoZebu: a vitrine mundial e a celebração da excelência

Entre as iniciativas que mais contribuíram para projetar Uberaba internacionalmente está a ExpoZebu. O evento, realizado na cidade há décadas, funciona como uma verdadeira vitrine onde são avaliados os melhores animais, realizados leilões de alto nível e discutidas tecnologias e políticas públicas para o setor.

A ExpoZebu reúne criadores, técnicos, pesquisadores e compradores. Para além do espetáculo das pistas, o evento tornou-se espaço de troca de conhecimento, de demonstração de inovações e de fortalecimento de redes comerciais. Sua relevância extrapola o entretenimento rural: é um pólo de negócios e de formação de opinião para o segmento zebuíno.

## Uberaba hoje: capital mundial do zebu e desafios contemporâneos

O apelido de “capital mundial do zebu” não é apenas um slogan; ele reflete décadas de trabalho concentrado em genética, organização institucional e eventos de visibilidade. Uberaba abriga centros de pesquisa, empresas de biotecnologia animal, escritórios de empresas de leilões e associações de criadores — uma cadeia produtiva completa.

Por outro lado, a pecuária de elite enfrenta desafios contemporâneos. A sustentabilidade ambiental, a pressão por redução de emissões de gases de efeito estufa, a necessidade de maior eficiência no uso de recursos e as exigências de mercados consumidores por rastreabilidade e bem-estar animal impõem novas demandas. Para manter seu protagonismo, Uberaba precisa integrar práticas de manejo sustentável, investir em pesquisas sobre eficiência alimentar, sistemas de pastagem de baixa emissão e certificação de práticas responsáveis.

Além disso, a difusão de tecnologia e de informação exige capacitação constante de técnicos e produtores menores, para que a cadeia não se torne excessivamente concentrada apenas em grandes players.

## Conclusão

A pecuária de elite em Uberaba é o produto de um processo histórico complexo: começou com as primeiras importações de zebu indiano no início do século XX, passou pela ação de pioneiros locais e pela formação de fazendas e associações, e se consolidou com a fundação da ABCZ, avanços do melhoramento genético e a criação de eventos como a ExpoZebu. Hoje, Uberaba reúne infraestrutura, conhecimento e mercado, tornando-se referência mundial.

O futuro desse legado dependerá da capacidade de conciliar excelência genética com sustentabilidade socioambiental e inclusão técnica. Manter a reputação de capital do zebu exigirá não apenas leilões e prêmios, mas uma visão integrada de desenvolvimento rural que responda às exigências de um mercado global cada vez mais atento a eficiência, transparência e responsabilidade.

(Artigo para TrianguloMineiro.com)